“Dá um choquinho quando encosto na condensadora.” A frase é tratada como curiosidade pelo cliente e deveria ser tratada como urgência pelo técnico. Há duas causas possíveis, e uma delas mata.
As duas causas do “choquinho”
Causa 1 — fuga capacitiva, sem aterramento
Equipamento com eletrônica tem, por projeto, filtros que ligam o circuito à carcaça através de capacitores. Isso cria uma pequena corrente de fuga, de poucos miliampères, perfeitamente normal.
Com a carcaça aterrada, essa corrente escoa pelo condutor de proteção e ninguém sente nada. Sem aterramento, a carcaça fica com potencial em relação ao solo, e quem encosta vira o caminho. O resultado é a sensação de formigamento característica — desagradável, e normalmente não letal.
Causa 2 — falha de isolamento
O enrolamento do compressor, ou um condutor interno, encostou na carcaça. Agora a carcaça está no potencial da fase. Quem encostar, descalço em piso molhado, fecha um circuito de centenas de miliampères.
Essa mata. E o sintoma inicial, para o cliente, é indistinguível do anterior: “dá um choquinho”.
Por isso a resposta correta a essa queixa nunca é “é normal”. É desenergizar e medir.
Como distinguir, com instrumento
Com o equipamento desenergizado e desconectado da rede, meça a resistência de isolamento entre cada terminal de alimentação e a carcaça:
| Leitura | Interpretação |
|---|---|
| Resistência muito alta (megohms) | Isolamento íntegro — a sensação era fuga capacitiva por falta de terra |
| Resistência baixa ou continuidade | Falha de isolamento — equipamento não pode voltar a operar |
Um megôhmetro dá a resposta precisa. Na falta dele, o multímetro na maior escala de resistência já distingue os dois casos extremos, que é o que decide a conduta.
O que o aterramento realmente faz
Três funções, e vale separá-las porque são frequentemente confundidas:
1. Levar a carcaça ao potencial de terra. Se não há diferença de potencial entre a carcaça e o chão onde a pessoa pisa, não há corrente pelo corpo.
2. Dar caminho de retorno para a corrente de falta. Numa falha de isolamento, a corrente precisa de um caminho de baixa resistência para que a proteção possa percebê-la e atuar. Sem esse caminho, a carcaça simplesmente fica energizada, esperando.
3. Permitir que o DR funcione. Esta é a que mais se ignora. O DR detecta a diferença entre a corrente que vai e a que volta. Se a corrente de fuga não tem por onde escoar, ela não escoa — e o DR não vê diferença nenhuma. O equipamento fica energizado, o DR fica armado, e a proteção só atua quando alguém encosta e vira o caminho de retorno.
Ou seja: DR sem aterramento protege muito menos do que aparenta. Ele vira uma proteção que só age depois que a pessoa já está levando choque — melhor que nada, mas longe do que deveria ser.
Neutro e terra não são a mesma coisa
É o erro mais perigoso da instalação improvisada, e é comum porque, no quadro de entrada, neutro e terra estão de fato interligados.
A diferença: o neutro conduz corrente de operação; o terra, não. O terra só conduz em condição de falta.
Quando alguém liga o pino de terra da tomada ao neutro — prática ainda encontrada em obra —, dois problemas aparecem:
1. A carcaça passa a ter o potencial do neutro. O neutro não está em zero volt: ele tem a queda de tensão do seu próprio percurso, que cresce com a carga da instalação. A carcaça fica com alguns volts, permanentemente.
2. Se o neutro romper em algum ponto antes, a carcaça vai ao potencial da fase. A corrente das cargas procura caminho de retorno e o encontra pelo “terra” improvisado. Todas as carcaças ligadas a ele ficam energizadas ao mesmo tempo. É o cenário de acidente grave.
A NBR 5410 trata dos esquemas de aterramento — TN, TT e IT — e das condições de cada um. O que não varia em nenhum deles: o condutor de proteção não é o neutro, e improvisar essa ligação é criar um risco que não existia.
Instalação sem terra: o que fazer
Situação frequente no Brasil, especialmente em imóvel mais antigo, com dois fios na tomada.
O que não fazer: ligar o terra ao neutro, ligar o terra à tubulação de água, cravar uma haste isolada só para aquele equipamento sem integrá-la ao sistema de aterramento da edificação, ou simplesmente deixar o pino de terra sem conexão.
A haste isolada merece explicação, porque parece uma boa ideia. Um aterramento local, não interligado ao da edificação, pode criar diferença de potencial entre massas — a carcaça do ar-condicionado num potencial, a tubulação de água em outro. Quem tocar nos dois ao mesmo tempo fecha o circuito.
O que fazer: informar o cliente, por escrito, que a instalação não possui condutor de proteção; que isso é condição da edificação, anterior ao serviço; e que a adequação é serviço de instalação elétrica a ser executado por profissional habilitado. Em muitos casos o próprio técnico de refrigeração pode executá-la, se tiver habilitação — mas é escopo separado, com orçamento separado.
Ligar o equipamento sem terra e não registrar nada é assumir um risco que não é seu.
Equipotencialização
Termo que aparece na norma e assusta, mas o conceito é simples: ligar entre si todas as massas metálicas que uma pessoa possa tocar simultaneamente, de modo que fiquem no mesmo potencial.
Se a carcaça da condensadora, a estrutura metálica do suporte, a tubulação e o eletroduto estão todos no mesmo potencial, não há tensão entre eles — e não há corrente pelo corpo de quem tocar dois ao mesmo tempo.
Em instalação de refrigeração isso é especialmente relevante porque o equipamento costuma ficar em área externa, em suporte metálico, com tubulação de cobre correndo até dentro do imóvel.
Erros comuns
Tratar “choquinho” como normal. Pode ser fuga capacitiva por falta de terra, e pode ser falha de isolamento. Medir decide.
Ligar terra ao neutro. Carcaça com potencial permanente e risco grave se o neutro romper.
Usar tubulação de água como aterramento. Trecho de PVC em qualquer ponto interrompe o caminho, e a tubulação não foi dimensionada para corrente de falta.
Cravar haste isolada só para o equipamento. Cria diferença de potencial entre massas.
Instalar DR e considerar o aterramento dispensável. Sem caminho de retorno, o DR só atua quando uma pessoa vira o caminho.
O que ficou
Choque na carcaça tem duas causas: fuga capacitiva sem aterramento, que incomoda, e falha de isolamento, que mata. A medição de isolamento entre terminais e carcaça distingue as duas. O aterramento leva a carcaça ao potencial de terra, dá caminho de retorno à corrente de falta e é o que permite ao DR funcionar como deveria. Neutro e terra não se confundem: o neutro conduz em operação normal. E instalação sem terra é condição a registrar por escrito, não a improvisar.
A próxima lição abre o último módulo, com o roteiro de diagnóstico que organiza tudo que vimos até aqui.
Teste seu conhecimento
Por que um DR instalado em circuito sem condutor de proteção oferece proteção reduzida?
- A) Porque o DR precisa do terra para se alimentar
- B) Porque sem caminho de retorno a corrente de fuga não circula, e o DR só detecta a diferença quando uma pessoa se torna esse caminho
- C) Porque a norma não permite DR sem aterramento
- D) Porque a sensibilidade do DR muda sem aterramento
Resposta: B) Porque sem caminho de retorno a corrente de fuga não circula, e o DR só detecta a diferença quando uma pessoa se torna esse caminho. O DR atua sobre a diferença entre a corrente que entra e a que retorna pelo circuito. Numa falha de isolamento sem condutor de proteção, não há por onde a corrente escapar, e a diferença não se estabelece — a carcaça fica energizada, esperando. O desequilíbrio só surge quando alguém toca o equipamento e fecha o caminho.
Qual o risco de interligar o condutor de proteção ao neutro na tomada do equipamento?
- A) Nenhum, pois neutro e terra estão interligados no quadro de entrada
- B) Apenas aumentar levemente o consumo
- C) A carcaça assume o potencial do neutro e, se o neutro romper antes desse ponto, vai ao potencial da fase
- D) O DR passa a desarmar constantemente
Resposta: C) A carcaça assume o potencial do neutro e, se o neutro romper antes desse ponto, vai ao potencial da fase. O neutro conduz corrente de operação e apresenta queda de tensão ao longo do percurso, de modo que a carcaça fica permanentemente com alguns volts. Pior: se o neutro se romper em um ponto anterior, a corrente das cargas busca retorno pelo condutor improvisado e energiza todas as carcaças ligadas a ele.
Um cliente relata choque leve ao tocar a condensadora. Qual a conduta correta?
- A) Explicar que é normal em equipamentos com eletrônica
- B) Instalar um DR e liberar o equipamento
- C) Desenergizar e medir o isolamento entre os terminais de alimentação e a carcaça para distinguir fuga capacitiva de falha de isolamento
- D) Aterrar a carcaça na tubulação de água mais próxima
Resposta: C) Desenergizar e medir o isolamento entre os terminais de alimentação e a carcaça para distinguir fuga capacitiva de falha de isolamento. A queixa é compatível tanto com fuga capacitiva por ausência de aterramento quanto com falha de isolamento, que é potencialmente fatal. Só a medição de isolamento distingue as duas, e ela precede qualquer decisão sobre liberar ou não o equipamento. —
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