“Quantos milímetros eu passo?” é a pergunta mais frequente da instalação — e a que mais recebe resposta errada, porque quase sempre vem acompanhada de um palpite baseado só no BTU do aparelho.
A seção de um condutor não sai de uma tabela única. Sai de quatro critérios aplicados em paralelo, e vale o maior resultado entre eles. Pular qualquer um produz instalação que funciona no dia e falha depois.
Os quatro critérios
| Critério | O que limita | Quando domina |
|---|---|---|
| Capacidade de condução | Aquecimento do condutor | Quase sempre, em percursos curtos |
| Queda de tensão | Tensão disponível no equipamento | Percursos longos — o caso da condensadora no telhado |
| Seção mínima de norma | Resistência mecânica | Circuitos de baixa corrente |
| Proteção contra sobrecarga | Coordenação com o disjuntor | Sempre precisa ser conferido |
O condutor final é o maior dos quatro. Não a média, não o mais conveniente.
Critério 1 — capacidade de condução de corrente
É o critério que as tabelas da NBR 5410 resolvem, e onde mora a maior parte dos erros, porque a tabela sozinha não basta: ela precisa ser corrigida.
O método de instalação muda tudo
O mesmo cabo de 2,5 mm² conduz correntes diferentes conforme está instalado. Cabo dentro de eletroduto embutido em parede de alvenaria dissipa calor muito pior que cabo em bandeja ao ar livre — e portanto conduz menos.
A norma organiza isso em métodos de referência (identificados por letras e números), e cada método tem sua coluna de capacidade. Consultar a linha errada da tabela é o erro de dimensionamento mais comum, e produz sempre o mesmo resultado: cabo subdimensionado.
Agrupamento reduz a capacidade
Vários circuitos no mesmo eletroduto se aquecem mutuamente. A norma aplica um fator de correção que reduz a capacidade de cada um, e o fator fica mais severo quanto mais circuitos houver.
Isso é relevante na prática de refrigeração porque o eletroduto que leva o circuito do ar-condicionado frequentemente já leva outros. Seis circuitos num eletroduto podem reduzir a capacidade de cada cabo a pouco mais da metade do valor de tabela.
Temperatura ambiente também reduz
As tabelas são referidas a uma temperatura ambiente padrão. Instalação em forro sob telha metálica, em casa de máquinas ou em fachada ensolarada opera bem acima disso, e exige fator de correção.
É um ponto que a refrigeração conhece bem: o cabo que sobe até a condensadora no telhado passa pelo lugar mais quente da obra.
> Capacidade corrigida = capacidade de tabela × fator de agrupamento × fator de temperatura
E é essa capacidade corrigida — não a de tabela — que precisa ser maior que a corrente de projeto.
Critério 2 — queda de tensão
Tem lição própria, porque é o critério que mais aparece em refrigeração e o que mais estraga compressor. O resumo: a NBR 5410 limita a queda de tensão acumulada, e dentro desse total limita também o que pode cair nos circuitos terminais. Em percurso longo, é esse critério que define a seção, não o aquecimento.
Critério 3 — seção mínima de norma
Independentemente da corrente, a norma estabelece seções mínimas por tipo de circuito — por resistência mecânica, não por capacidade elétrica. Circuito de força não desce abaixo de um valor mínimo mesmo que a corrente seja baixa.
Na prática da refrigeração isso raramente domina, mas aparece em circuitos de comando e sinal.
Critério 4 — coordenação com a proteção
A relação que precisa valer:
> corrente de projeto ≤ corrente nominal do disjuntor ≤ capacidade corrigida do condutor
Em palavras: o disjuntor tem que ser grande o bastante para não desarmar com a carga normal, e pequeno o bastante para desarmar antes do cabo esquentar demais.
Aumentar o disjuntor sem aumentar o cabo é a inversão perigosa dessa lógica. Quando o disjuntor desarma e alguém “resolve” trocando 20 A por 32 A sem mexer no condutor, a proteção deixou de proteger o cabo. O circuito para de desarmar e passa a aquecer — e o próximo sintoma é isolação derretida.
O que a placa do equipamento já resolve
Fabricantes de ar-condicionado informam MCA (Minimum Circuit Ampacity) e MOCP (Maximum Overcurrent Protection). Esses dois números já consideram a natureza da carga, inclusive a partida.
Quando eles estão disponíveis, o caminho é:
- O condutor precisa ter capacidade corrigida ≥ MCA
- O disjuntor não pode exceder MOCP
- Verificar queda de tensão para o percurso real
- Comparar com o mínimo de norma
A placa não dispensa os critérios — ela fornece a corrente de projeto correta, que é por onde eles começam.
Alumínio, cobre e emendas
Cobre é o padrão em instalação predial e o que os terminais dos equipamentos esperam.
Alumínio aparece em ramais de entrada e seções grandes. Tem menor condutividade — exige seção maior para a mesma corrente — e, principalmente, exige conector apropriado. Alumínio apertado em borne de latão projetado para cobre afrouxa com os ciclos térmicos e vira ponto quente.
E a regra que vale para qualquer material: emenda é ponto de falha. Toda emenda tem resistência de contato, aquece, oxida, e aumenta a resistência com o tempo. Em circuito de ar-condicionado, que opera horas seguidas em corrente alta, emenda mal feita dentro de forro é início de incêndio. Quando a emenda for inevitável, use conector apropriado, em caixa de passagem acessível — nunca dentro de eletroduto.
Erros comuns
Escolher a seção pelo BTU do aparelho. Não há relação direta: o que determina é a corrente da placa, a distância e as condições de instalação.
Usar a tabela sem aplicar o método de instalação correto. Produz cabo subdimensionado com aparência de cálculo.
Esquecer os fatores de agrupamento e temperatura. São os dois que mais reduzem a capacidade real em obra.
Aumentar o disjuntor para parar de desarmar. Remove a proteção do condutor em vez de resolver a causa.
Emendar dentro do eletroduto. Inacessível para manutenção e proibido pela boa prática.
O que ficou
Quatro critérios, e vale o maior: capacidade de condução corrigida, queda de tensão, seção mínima de norma e coordenação com a proteção. A capacidade de tabela precisa ser corrigida por método de instalação, agrupamento e temperatura ambiente — e é a corrigida que conta. MCA e MOCP da placa dão a corrente de projeto e o teto da proteção. E disjuntor maior nunca substitui cabo maior.
A próxima lição isola o critério que mais mata compressor em instalação longa: queda de tensão.
Teste seu conhecimento
Um cabo tem capacidade de tabela de 24 A. Está num eletroduto com mais cinco circuitos (fator de agrupamento 0,57) e em ambiente quente (fator de temperatura 0,87). Qual a capacidade corrigida aproximada?
- A) 24 A
- B) 19 A
- C) 12 A
- D) 21 A
Resposta: C) 12 A. A capacidade corrigida é o produto: 24 × 0,57 × 0,87 ≈ 11,9 A, ou seja, cerca de 12 A — metade do valor de tabela. É esse valor, não os 24 A, que deve ser comparado à corrente de projeto.
O disjuntor de um circuito desarma com frequência. Trocar o disjuntor de 20 A por um de 32 A, mantendo o mesmo condutor, produz qual efeito?
- A) Resolve o problema com segurança, pois o disjuntor passa a suportar a carga
- B) O circuito para de desarmar, mas o condutor fica sem proteção contra sobrecarga
- C) Nenhum efeito, pois a proteção é dada pelo condutor
- D) Reduz a corrente do circuito
Resposta: B) O circuito para de desarmar, mas o condutor fica sem proteção contra sobrecarga. A função do disjuntor é proteger o condutor. Elevando a corrente nominal da proteção acima da capacidade do cabo, a sobrecarga deixa de ser interrompida: o circuito para de desarmar e passa a aquecer, com risco de dano à isolação e de incêndio.
Qual critério normalmente determina a seção do condutor numa instalação em que a condensadora fica a 40 metros do quadro?
- A) Seção mínima de norma
- B) Capacidade de condução de corrente
- C) Queda de tensão
- D) Coordenação com a proteção
Resposta: C) Queda de tensão. Em percursos longos a queda de tensão cresce proporcionalmente ao comprimento e costuma exigir seção maior do que a necessária apenas para conduzir a corrente sem aquecer. É o critério dominante nesses casos. —
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- Página-pilar: Instalação elétrica para equipamentos de refrigeração
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