Tensão, corrente, resistência e potência: o que o técnico de refrigeração precisa saber

Quem instala ar-condicionado passa o dia inteiro trabalhando com eletricidade e quase nunca precisa resolver um circuito no papel. Mas há quatro grandezas que aparecem em toda placa de identificação, em todo diagnóstico e em toda discussão com o eletricista da obra — e entender o que cada uma significa fisicamente é a diferença entre medir e adivinhar.

A analogia hidráulica funciona bem aqui, e um técnico de refrigeração já pensa em termos de pressão e vazão o dia inteiro. Tensão é pressão. Corrente é vazão. Resistência é perda de carga. Um compressor é uma carga como um evaporador é uma carga: consome o que precisa, e o circuito tem que entregar.

As quatro grandezas, uma a uma

Tensão (V, volts)

É a diferença de potencial entre dois pontos — o que “empurra” os elétrons. No Brasil você vai encontrar 127 V e 220 V entre fase e neutro, dependendo da região, e 220 V ou 380 V entre fases.

O ponto prático: tensão se mede entre dois pontos, nunca em um só. Encostar uma ponta do multímetro na fase e deixar a outra no ar não mede nada. É o erro de medição mais comum de quem está começando.

Corrente (A, ampères)

É a quantidade de carga que passa por segundo. É o que esquenta o fio, o que faz o disjuntor desarmar e o que você mede com o alicate amperímetro.

A corrente não é escolhida pelo instalador — ela é consequência da carga e da tensão. Você não “manda” 15 A no compressor; o compressor puxa o que precisa, e o seu trabalho é garantir que o circuito aguente.

Resistência (Ω, ohms)

É a oposição à passagem de corrente. Em refrigeração você mede resistência o tempo todo: enrolamento do compressor, resistência de degelo, bobina de contatora, sensor de temperatura.

Dois valores de resistência contam história sozinhos. Zero ohm onde deveria haver resistência é curto. Resistência infinita onde deveria haver continuidade é circuito aberto — enrolamento queimado, fio partido, fusível aberto.

Potência (W, watts)

É o produto de tensão por corrente — a taxa com que a energia é consumida. É o que aparece na conta de luz e o que você compara quando discute eficiência.

Para um compressor hermético de ar-condicionado, a potência elétrica consumida é sempre menor que a capacidade de refrigeração, porque o equipamento move calor em vez de criar frio. Um split de 12.000 BTU/h com COP 3,5 consome algo próximo de 1.000 W para entregar aqueles 3.517 W de refrigeração. Quando alguém diz “esse aparelho tem 12.000 W”, confundiu capacidade com consumo.

A Lei de Ohm, sem decoreba

A relação entre as três primeiras é a Lei de Ohm:

> V = R × I

Dela saem as outras duas formas: I = V / R e R = V / I. Isso é tudo. A roda de fórmulas que aparece nas apostilas não acrescenta nada — são as mesmas três relações rearranjadas.

A aplicação que mais serve em campo é a terceira. Você mede tensão, mede corrente, e descobre a resistência que o circuito está realmente vendo. Se um resistor de degelo de 500 W em 220 V deveria puxar 2,3 A e está puxando 1,1 A, a resistência dobrou — está abrindo.

O que medirCom o quêO que o valor diz
Tensão de alimentaçãoMultímetro em V~Se o problema é do equipamento ou da rede
Corrente de operaçãoAlicate amperímetroSe a carga está dentro do esperado
Resistência de enrolamentoMultímetro em Ω, equipamento desenergizadoEnrolamento aberto, em curto ou íntegro
ContinuidadeMultímetro em Ω ou buzzerFio partido, fusível aberto, contato sujo

Potência aparente, ativa e reativa: onde a conta muda

Esta é a parte que separa quem entende de quem repete. Em corrente contínua, potência é simplesmente tensão vezes corrente. Em corrente alternada, com carga indutiva — e motor é carga indutiva —, a corrente e a tensão não sobem e descem juntas. Há uma defasagem.

O efeito prático: o produto de tensão por corrente dá um número maior que a potência realmente consumida.

  • Potência aparente (VA ou kVA) — é V × I puro e simples. É o que o fio, o disjuntor e o transformador precisam suportar.
  • Potência ativa (W ou kW) — é a parte que vira trabalho e calor. É o que a concessionária cobra na conta residencial.
  • Fator de potência — a razão entre as duas. Um motor de refrigeração típico opera entre 0,7 e 0,9.

O erro que isso causa é concreto. Um compressor de 2.200 W em 220 V, se você calcular 2200 / 220 = 10 A, parece caber folgado num disjuntor de 16 A. Mas com fator de potência 0,75 a corrente real é 2200 / (220 × 0,75) ≈ 13,3 A — e o disjuntor de 16 A já está trabalhando apertado para uma carga que ainda vai ter pico de partida.

Regra de campo: para dimensionar condutor e proteção de carga com motor, use a corrente da placa. Nunca a corrente calculada a partir dos watts.

A placa de identificação é a fonte da verdade

Tudo que você precisa está estampada no equipamento, e vale mais que qualquer tabela genérica:

SiglaO que éPara que serve
V / Ph / HzTensão, número de fases, frequênciaConfirmar que o circuito disponível serve
RLARated Load Amps — corrente em carga nominalBase do dimensionamento do circuito
LRALocked Rotor Amps — corrente de rotor bloqueadoO pico de partida que a proteção vai ver
MCAMinimum Circuit AmpacityCapacidade mínima do condutor
MOCP / MFSProteção máxima admitidaTeto do disjuntor ou fusível

Quando a placa traz MCA e MOCP, o fabricante já fez a conta para você — e ela tem prioridade sobre estimativas. O instalador que ignora a placa e “chuta pelo BTU” é o que volta na garantia.

Erros comuns que aparecem já no primeiro contato

Confundir potência de refrigeração com potência elétrica. 12.000 BTU/h é o calor removido, não o consumo. São coisas de ordens de grandeza diferentes.

Calcular corrente dividindo watts por volts em carga com motor. Esquece o fator de potência e subestima a corrente em 15% a 30%.

Medir resistência com o circuito energizado. Além de dar leitura errada, queima o multímetro — e às vezes a mão de quem segura.

Tratar 220 V como se fosse sempre a mesma coisa. Em boa parte do país 220 V é fase-neutro; em outra parte é fase-fase, com duas fases vivas. Para o equipamento pode dar no mesmo; para quem vai colocar a mão no painel, não dá.

O que ficou

Tensão empurra, corrente passa, resistência se opõe, potência é o produto. Em carga com motor, a corrente real é maior que watts dividido por volts, porque o fator de potência entra na conta. A placa do equipamento traz RLA, LRA, MCA e MOCP, e esses números têm prioridade sobre qualquer estimativa.

Na próxima lição vamos ver por que “220 V” significa coisas diferentes dependendo de onde você está instalando — e o que isso muda na hora de ligar.

Teste seu conhecimento

Um compressor tem na placa 2.200 W e fator de potência 0,75, alimentado em 220 V. Qual a corrente real que o circuito vai ver em regime?
  • A) 10,0 A
  • B) 13,3 A
  • C) 7,5 A
  • D) 16,5 A

Resposta: B) 13,3 A. Em carga indutiva a corrente é obtida por P / (V × FP), ou seja, 2200 / (220 × 0,75) ≈ 13,3 A. O cálculo simples de 2200/220 = 10 A ignora o fator de potência e subestima a corrente em um terço — erro suficiente para dimensionar condutor e disjuntor abaixo do necessário.

O que a sigla LRA na placa de um compressor informa?
  • A) A corrente de operação em regime nominal
  • B) A capacidade mínima do condutor do circuito
  • C) A corrente com o rotor bloqueado, equivalente ao pico de partida
  • D) A proteção máxima admitida pelo fabricante

Resposta: C) A corrente com o rotor bloqueado, equivalente ao pico de partida. LRA é *Locked Rotor Amps*, a corrente que o motor puxa com o rotor parado — o que acontece no instante da partida. RLA é a corrente de regime, MCA é a capacidade mínima do condutor e MOCP é o teto da proteção.

Ao medir a resistência do enrolamento de um compressor, o multímetro indica resistência infinita. O que isso significa?
  • A) Enrolamento em curto-circuito
  • B) Enrolamento aberto, sem continuidade
  • C) Enrolamento íntegro
  • D) A medição está correta apenas se o equipamento estiver energizado

Resposta: B) Enrolamento aberto, sem continuidade. Resistência infinita significa que não há caminho para a corrente — o enrolamento está interrompido. Curto-circuito daria o oposto, resistência próxima de zero. E a medição de resistência é sempre feita com o equipamento desenergizado: com tensão presente a leitura é inválida e o instrumento corre risco. —

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