Filtragem de ar: G4, MERV, ISO 16890 e HEPA sem confusão

Filtro é o componente mais barato do sistema e o que mais influencia a qualidade do ar que as pessoas respiram. Também é o mais negligenciado: trocado tarde, especificado por hábito, e escolhido pelo preço unitário em vez do custo de operação.

A confusão começa na nomenclatura. G4, M5, F7, MERV 8, MERV 13, ePM1, HEPA H13 — são sistemas de classificação diferentes, de épocas diferentes, e boa parte do mercado brasileiro mistura os três no mesmo orçamento.

Como um filtro realmente captura partícula

A intuição diz que o filtro é uma peneira: partícula maior que o furo fica retida. Isso explica apenas um dos mecanismos, e nem é o principal.

Interceptação. A partícula segue a linha de fluxo e encosta na fibra ao passar perto. Domina em partículas médias.

Impactação inercial. A partícula é pesada demais para desviar junto com o ar ao contornar a fibra, e se choca com ela. Domina em partículas grandes e velocidades maiores.

Difusão. Partículas muito pequenas (abaixo de ~0,1 µm) sofrem movimento browniano, ziguezagueando e colidindo com as fibras. Domina em partículas ultrafinas.

Efeito eletrostático. Fibras carregadas atraem partículas. Muito eficaz — e o motivo de um cuidado importante: filtros eletrostáticos podem perder desempenho ao longo do uso, conforme a carga se dissipa, mesmo sem entupir.

A consequência dessa combinação é o fato mais contraintuitivo da filtragem: a eficiência não cresce monotonicamente conforme a partícula diminui. Existe uma faixa de tamanho — em torno de 0,1 a 0,3 µm — em que nenhum dos mecanismos é muito eficaz. É a partícula mais difícil de capturar, e é justamente nela que se ensaia o filtro HEPA.

Os sistemas de classificação

O sistema antigo europeu: G, M, F

Classificava por eficiência gravimétrica (G1 a G4, filtros grossos) e por eficiência em partículas de 0,4 µm (M5, M6, F7 a F9). Foi substituído pela ISO 16890, mas o vocabulário ficou: “filtro G4” e “filtro F7” continuam sendo o que se pede no balcão.

O sistema americano: MERV

Escala de 1 a 16 baseada na eficiência mínima em várias faixas de tamanho de partícula. Referências úteis:

MERVRetém bemUso típico
1–4Poeira grossa, fiaposPré-filtro, proteção de serpentina
5–8Poeira, mofo, pólenComercial padrão
9–12Poeira fina, partículas respiráveisComercial de melhor qualidade
13–16Fumaça, bactérias, aerossóis finosHospitais, escritórios com exigência de QAI

MERV 13 virou referência de mercado depois de 2020 por reter parcela relevante dos aerossóis respiratórios.

O sistema atual: ISO 16890

Mudou a lógica. Em vez de ensaiar num tamanho único de partícula, classifica pela eficiência em relação ao material particulado que a saúde pública mede:

ClasseRefere-se aSignificado
ISO CoarsePoeira grossaRetém menos de 50% de PM10
ISO ePM10Partículas até 10 µmPoeira inalável
ISO ePM2,5Partículas até 2,5 µmFração respirável fina
ISO ePM1Partículas até 1 µmFração mais crítica para a saúde

A classe vem acompanhada do percentual: ISO ePM1 60% significa que o filtro retém 60% do material particulado abaixo de 1 µm. É uma informação muito mais útil que “F7”, porque conversa diretamente com os índices de qualidade do ar usados em saúde ambiental.

HEPA e ULPA

Estão fora dessas escalas. São ensaiados na partícula mais penetrante:

  • HEPA — a partir de 99,95% de retenção (classe H13) até 99,995% (H14)
  • ULPA — 99,9995% ou mais

Usados em salas limpas, isolamentos hospitalares, farmacêutica e microeletrônica. Exigem sistema projetado para a perda de carga elevada e teste de integridade instalado — um HEPA perfeito montado com vazamento na moldura não filtra nada.

E no Brasil

A ABNT NBR 16101 trata da classificação de filtros para partículas em uso geral de ventilação. Na prática de mercado, convivem as três nomenclaturas, e a especificação precisa deixar claro qual sistema está sendo usado — pedir “filtro F7 ou equivalente” sem dizer o equivalente em qual escala é receita para receber coisa diferente da esperada.

A conta que quase ninguém faz: filtro e energia

O filtro é uma resistência no caminho do ar. Conforme retém partícula, essa resistência cresce, o ventilador precisa de mais potência, e o consumo sobe todo dia até a troca.

Isso significa que o custo real de um filtro é:

Custo total = preço do filtro + mão de obra da troca + energia consumida pela perda de carga durante toda a vida útil

E a parcela de energia costuma ser a maior das três. Um filtro mais caro, com maior área de mídia (mais pregas, maior superfície) e menor perda de carga inicial, frequentemente sai mais barato no ano — porque dura mais e gasta menos.

Por isso a boa prática é:

  • Especificar o filtro pela perda de carga média ao longo da vida útil, não pela inicial
  • Definir a troca pela perda de carga medida, não pelo calendário — um manômetro diferencial simples paga o próprio custo rapidamente
  • Usar pré-filtro para proteger o filtro fino: trocar um pré-filtro barato várias vezes prolonga muito a vida do caro

Estágios de filtragem

Sistemas sérios filtram em estágios, cada um protegendo o seguinte:

EstágioClasse típicaFunção
Pré-filtroISO Coarse / MERV 6-8Retém o grosso, protege o estágio seguinte
Filtro principalISO ePM1 50-70% / MERV 13-14Faz o trabalho de qualidade do ar
Filtro finalHEPASó em ambientes críticos
Filtro de carvão ativadoGases e odores (não retém particulado)

Vale sublinhar: filtro de particulado não remove gás, e carvão ativado não remove partícula. São problemas diferentes com soluções diferentes. Controlar CO₂, formaldeído ou odor exige ar externo ou adsorção — não um filtro melhor.

Erros comuns

Trocar por calendário. Um filtro pode saturar em dois meses numa avenida movimentada e durar oito num andar alto. A perda de carga é que manda.

Instalar filtro de classe alta em sistema não projetado para ele. Colocar MERV 13 onde havia MERV 8, sem verificar a curva do ventilador, derruba a vazão e piora tudo — inclusive a filtragem, porque menos ar passa pelo filtro.

Moldura mal vedada. Ar que passa pela fresta não passa pelo filtro. Vedação e fixação valem tanto quanto a mídia.

Deixar o sistema operar sem filtro durante a obra. A serpentina entope de poeira de construção, e nunca mais volta ao desempenho original sem limpeza química.

Achar que filtro resolve qualidade do ar sozinho. Filtragem controla particulado; renovação controla gases e CO₂. Uma não substitui a outra.

O que ficou

Filtro captura partícula por quatro mecanismos, e há uma faixa de tamanho onde todos são fracos — por isso o HEPA é ensaiado justamente ali. A ISO 16890 classifica por PM1, PM2,5 e PM10, o que é mais útil que as escalas antigas. O custo real do filtro é dominado pela energia que sua perda de carga consome, o que torna a troca por medição de pressão, e não por calendário, a decisão economicamente correta.

Teste seu conhecimento

O que significa a classificação ISO ePM1 60%?
  • A) O filtro tem 60% de área útil
  • B) O filtro retém 60% do material particulado com diâmetro de até 1 µm
  • C) O filtro dura 60% mais que o padrão
  • D) O filtro tem 60% da perda de carga de um HEPA

Resposta: B) O filtro retém 60% do material particulado com diâmetro de até 1 µm. A classificação ISO 16890 indica a fração do material particulado de determinada faixa (PM1, PM2,5 ou PM10) que o filtro retém — no caso, 60% das partículas de até 1 µm.

Por que substituir um filtro MERV 8 por um MERV 13 sem análise pode piorar o desempenho do sistema?
  • A) Porque o MERV 13 retém menos partículas grandes
  • B) Porque a maior perda de carga pode reduzir a vazão além do aceitável, prejudicando climatização e a própria filtragem
  • C) Porque o MERV 13 não é compatível com sistemas comerciais
  • D) Porque exige troca mais frequente

Resposta: B) Porque a maior perda de carga pode reduzir a vazão além do aceitável, prejudicando climatização e a própria filtragem. O filtro de maior eficiência oferece mais resistência. Se o ventilador não tiver pressão disponível, o ponto de operação desloca, a vazão cai, o ambiente deixa de ser climatizado adequadamente e menos ar é efetivamente filtrado.

Qual o critério tecnicamente correto para definir o momento da troca de um filtro?
  • A) O calendário de manutenção preventiva
  • B) A aparência visual da mídia
  • C) A perda de carga medida através do filtro, comparada ao limite final recomendado
  • D) O tempo de operação do equipamento

Resposta: C) A perda de carga medida através do filtro, comparada ao limite final recomendado. A saturação depende da carga de poeira do ar local, que varia enormemente. A medição da pressão diferencial indica o estado real do filtro e evita tanto a troca precoce quanto a operação com filtro saturado. —

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