O capacitor é o componente que mais se troca em refrigeração e o que mais se troca sem necessidade. Entender o que ele faz elimina os dois extremos: o técnico que troca capacitor em todo atendimento e o que nunca suspeita dele.
Por que o motor monofásico precisa de capacitor
Um motor trifásico parte sozinho. As três fases chegam defasadas entre si, e essa defasagem cria um campo magnético que gira naturalmente — o rotor segue o campo.
O motor monofásico tem uma fase só. O campo que ela cria pulsa, mas não gira. Um campo pulsante não dá direção ao rotor: o motor zumbe e fica parado. Se você girar o eixo com a mão, ele continua no sentido que você deu — o que é a demonstração prática do problema.
A solução é criar artificialmente uma segunda “fase”. O motor recebe um enrolamento auxiliar com característica elétrica diferente do principal, e o capacitor em série com ele desloca a corrente no tempo. Com duas correntes defasadas em dois enrolamentos deslocados no espaço, nasce um campo girante — e o motor parte.
Os dois capacitores, e as diferenças que importam
| Capacitor de partida | Capacitor permanente | |
|---|---|---|
| Nome técnico | Start | Run ou permanente |
| Função | Conjugado alto no arranque | Melhora rendimento e fator de potência em regime |
| Fica no circuito | Só durante a partida | O tempo todo |
| Capacitância típica | Dezenas a centenas de µF | Poucos a algumas dezenas de µF |
| Construção | Eletrolítico, seco | A óleo ou filme, para serviço contínuo |
| Corpo | Geralmente plástico preto | Geralmente metálico, às vezes oval |
| Tolera uso contínuo? | Não — queima | Sim, é para isso |
A distinção construtiva é a que mais gera erro de campo. O capacitor de partida é projetado para trabalhar poucos segundos por ciclo de operação; deixado permanentemente energizado, ele aquece e falha rápido — às vezes com rompimento do invólucro.
As configurações que você vai encontrar
- PSC (Permanent Split Capacitor) — só capacitor permanente. É a configuração mais comum em ar-condicionado de janela e split convencional, onde o compressor parte com as pressões equalizadas e não precisa de conjugado extra.
- CSR (Capacitor Start, Capacitor Run) — os dois capacitores, com o de partida saindo do circuito por relé após o arranque. Usado onde a partida é contra carga.
- CSIR (Capacitor Start, Induction Run) — só o de partida, que sai do circuito depois. Comum em compressores de geladeira e freezer.
Saber qual configuração o equipamento usa evita a pergunta errada. Procurar capacitor de partida num compressor PSC é procurar o que não existe.
A ligação PSC, que é a que você mais vai encontrar, tem este desenho:
O capacitor fica entre S e R — não entre S e a linha, e não entre S e C. É o engano mais comum de quem liga pela primeira vez sem o diagrama do fabricante.
O capacitor duplo
Em muitas condensadoras há um único corpo com três terminais, marcados C (comum), HERM (compressor) e FAN (ventilador). São dois capacitores no mesmo invólucro, com valores diferentes — por exemplo 35 + 5 µF.
Na substituição, os dois valores precisam ser respeitados. E se apenas uma seção falhou, o corpo inteiro é trocado: não há reparo.
Como testar
Antes de tudo: descarregar
Capacitor armazena energia e mantém carga depois de desligado, inclusive por horas em unidades grandes. Antes de tocar nos terminais, descarregue com um resistor apropriado entre eles. Curto-circuitar com chave de fenda é prática comum, é perigosa, e danifica o componente que você talvez fosse reaproveitar.
Teste 1 — inspeção visual
Resolve boa parte dos casos sem instrumento:
- Topo estufado — condenado. O capacitor foi projetado para se deformar antes de romper.
- Vazamento de óleo ou corrosão — condenado.
- Corpo trincado ou terminais oxidados — condenado.
Capacitor estufado não precisa de teste. Já deu o diagnóstico.
Teste 2 — medição de capacitância
Com o capacitor desconectado do circuito e descarregado, use a função de capacitância (µF) do multímetro.
Compare com o valor impresso no corpo. A tolerância de fabricação costuma ser da ordem de ±5% a ±10% — o valor exato vem gravado no componente.
| Leitura | Conclusão |
|---|---|
| Dentro da tolerância marcada | Capacitância em ordem |
| Abaixo da tolerância | Perdeu capacitância — trocar |
| Próxima de zero | Aberto — trocar |
| Multímetro acusa curto | Em curto — trocar |
O capacitor precisa estar desconectado. Medido no circuito, o resto da instalação forma caminhos paralelos e a leitura não vale nada.
Teste 3 — corrente, com o equipamento operando
Para o capacitor permanente, há um teste indireto útil: medir a corrente no fio que vai ao capacitor com o equipamento em regime e comparar com o esperado para aquele valor de µF na tensão de operação. É um teste de confirmação, não de primeira linha, e exige trabalho em circuito energizado — com os cuidados correspondentes.
Como escolher o de reposição
Três parâmetros, e dois deles não admitem improviso.
1. Capacitância (µF) — deve ser igual à original. Não é um ajuste: valor diferente altera a defasagem, o conjugado e a corrente no enrolamento auxiliar. Capacitância menor reduz o conjugado; maior sobreaquece o enrolamento.
2. Tensão (V) — pode ser igual ou maior, nunca menor. Um capacitor de 440 V substitui um de 370 V; o contrário falha. A tensão marcada não é a da rede: é a tensão que o componente suporta, e nos circuitos de capacitor ela é bem maior que a de alimentação.
3. Tipo construtivo — partida por partida, permanente por permanente. Nunca um no lugar do outro.
Vale ainda conferir se o original tem resistor de descarga (bleeder) entre os terminais, e manter o equivalente.
Erros comuns
Trocar capacitor sem diagnosticar. É barato e parece inofensivo, mas mascara causa real — tensão baixa, compressor travando, condensação de pressão alta — e o problema volta.
Usar capacitor de partida como permanente. Não é construído para serviço contínuo e falha em pouco tempo.
Substituir por valor de µF diferente “porque era o que tinha”. Altera conjugado e corrente no enrolamento auxiliar.
Instalar capacitor de tensão menor que a original. Falha, às vezes com rompimento.
Medir sem desconectar do circuito. Leitura inválida por caminhos paralelos.
Descarregar com chave de fenda. Arco, risco de queimadura e dano ao componente.
O que ficou
O motor monofásico precisa de capacitor porque uma fase sozinha produz campo pulsante, não girante. O de partida dá conjugado no arranque e sai do circuito; o permanente fica o tempo todo e melhora rendimento e fator de potência. Inspeção visual resolve muitos casos; medição de capacitância com o componente desconectado resolve o resto. Na reposição, µF igual, tensão igual ou maior, e tipo construtivo correspondente.
A próxima lição trata dos dois componentes que trabalham junto com os capacitores: o relé que tira o capacitor de partida do circuito e o protetor térmico que salva o motor.
Teste seu conhecimento
Por que um motor monofásico não parte sozinho sem capacitor ou enrolamento auxiliar?
- A) Porque a tensão monofásica é baixa demais
- B) Porque uma única fase produz campo magnético pulsante, que não define sentido de rotação
- C) Porque o rotor de motor monofásico é diferente do trifásico
- D) Porque a frequência de 60 Hz é insuficiente
Resposta: B) Porque uma única fase produz campo magnético pulsante, que não define sentido de rotação. O campo criado por uma só fase pulsa, mas não gira, e um campo pulsante não impõe sentido de rotação ao rotor. O enrolamento auxiliar com capacitor cria uma segunda corrente defasada, e a combinação produz campo girante.
Um capacitor marcado 35 µF / 370 V falhou. Qual substituição é aceitável?
- A) 35 µF / 440 V
- B) 45 µF / 370 V
- C) 35 µF / 220 V
- D) 25 µF / 440 V
Resposta: A) 35 µF / 440 V. A capacitância deve ser mantida, porque define a defasagem e o conjugado; a tensão pode ser igual ou maior, nunca menor. 35 µF / 440 V atende aos dois critérios. As demais alternativas alteram a capacitância ou reduzem a tensão suportada.
Por que a medição de capacitância deve ser feita com o capacitor desconectado do circuito?
- A) Porque o multímetro não mede capacitância em corrente alternada
- B) Porque o restante do circuito forma caminhos paralelos que falseiam a leitura
- C) Porque o capacitor precisa estar carregado para ser medido
- D) Porque a norma exige desconexão para qualquer medição
Resposta: B) Porque o restante do circuito forma caminhos paralelos que falseiam a leitura. Com o capacitor ainda ligado, enrolamentos e demais componentes oferecem caminhos paralelos à medição, e o valor lido não corresponde ao do componente. A medição exige o capacitor isolado e previamente descarregado. —
