A corrente de partida do compressor: LRA, RLA e o que isso impõe ao circuito

Um compressor hermético é um motor de indução trancado dentro de uma carcaça soldada, acoplado a uma bomba que precisa vencer pressão. No instante em que recebe tensão, ele está parado — e um motor parado é, eletricamente, quase um curto-circuito.

Esse instante é o que dimensiona metade da instalação.

Por que a corrente de partida é tão alta

Com o rotor girando, o motor gera uma tensão contrária que se opõe à tensão aplicada, e a corrente resultante é modesta. Com o rotor parado, essa oposição não existe: o que limita a corrente é apenas a resistência e a reatância dos enrolamentos.

O resultado é a corrente de rotor bloqueado — LRA, Locked Rotor Amps —, que em compressores de refrigeração costuma ficar em torno de quatro a oito vezes a corrente de regime, dependendo do tipo de motor e do sistema de partida.

SiglaO que éOnde usar
RLACorrente em carga nominal, regimeComparar com a medição do alicate
LRACorrente com rotor bloqueadoAvaliar partida, proteção e queda de tensão momentânea
MCACapacidade mínima do circuitoDimensionar o condutor
MOCPProteção máxima admitidaTeto do disjuntor

A boa notícia é que o pico dura pouco — frações de segundo a poucos segundos, até o motor atingir rotação. A má notícia é o que acontece nesse intervalo.

O que o pico faz com a instalação

Queda de tensão momentânea

Durante a partida, a corrente elevada produz uma queda de tensão proporcionalmente elevada no condutor. É por isso que a luz pisca quando o ar-condicionado liga: a instalação inteira sente.

E aqui mora o círculo vicioso que a lição de queda de tensão já anunciou. Tensão baixa reduz o conjugado pelo quadrado; conjugado menor faz a partida demorar mais; partida mais longa mantém a corrente alta por mais tempo, aprofundando a queda. Em instalação no limite, o compressor simplesmente não consegue partir — fica zumbindo até o protetor térmico atuar.

Exigência sobre a proteção

O disjuntor precisa tolerar o pico sem desarmar e ainda assim proteger o cabo. É exatamente para isso que existem as curvas: a curva C tolera um múltiplo maior da corrente nominal antes do disparo magnético, e a curva D vai além.

Quando o fabricante informa MOCP, ele já fez essa conta — o valor considera a partida.

Pressão de equalização

Detalhe que é de refrigeração, não de eletricidade, mas determina o comportamento elétrico: um compressor que tenta partir com pressão desequilibrada entre alta e baixa precisa vencer um esforço mecânico adicional, e a partida fica muito mais dura.

É daí que vem a regra dos três a cinco minutos antes de religar um compressor que acabou de parar. Não é superstição: é o tempo que o sistema leva para equalizar pressões. Religar antes disso é partir contra pressão, com corrente de partida prolongada.

Equipamentos modernos têm esse retardo embutido na placa de controle. Em sistema com comando externo — câmara fria, instalação com termostato de contato —, o relé de retardo precisa existir no projeto.

Ciclo curto: o destruidor silencioso

Ciclo curto é o compressor ligando e desligando em intervalos muito curtos. Cada partida é um evento de corrente elevada e aquecimento concentrado nos enrolamentos. Um compressor suporta um número limitado de partidas por hora — o fabricante informa, e valores da ordem de seis a doze por hora são comuns.

As causas típicas, em refrigeração:

CausaComo identificar
Equipamento superdimensionadoAtinge o setpoint rápido demais e desliga
Diferencial do termostato muito estreitoLiga e desliga com variação mínima de temperatura
Carga de refrigerante incorretaAtuação de pressostato de alta ou de baixa
Condensador sujo ou ventilação obstruídaPressostato de alta cortando
Filtro secador obstruídoPressostato de baixa cortando

Note que a maior parte não é problema elétrico — mas se manifesta eletricamente e destrói um componente elétrico. É um bom exemplo de por que o técnico de refrigeração precisa saber ler os dois lados.

Partida direta e as alternativas

Partida direta — a tensão plena é aplicada de uma vez. É o padrão para a esmagadora maioria dos equipamentos de refrigeração comercial leve e residencial. Simples, barata, e perfeitamente adequada dentro da faixa de potência usual.

Para equipamentos maiores, existem formas de reduzir o pico:

  • Chave estrela-triângulo — parte em estrela, com tensão reduzida nas bobinas, e comuta para triângulo. Assunto do curso de comandos elétricos.
  • Soft-starter — eleva a tensão gradualmente por eletrônica.
  • Inversor de frequência — parte em frequência baixa e acelera. É o que faz a tecnologia inverter.

O compressor inverter merece destaque aqui porque muda a conversa: ele praticamente não tem pico de partida, porque nunca parte do zero com tensão plena. Ele acelera. Isso reduz a exigência sobre o circuito, elimina o ciclo curto e é parte importante do ganho de eficiência da tecnologia — mas introduz uma eletrônica de potência sensível a tensão e a surto, que exige a instalação bem feita por outras razões.

Erros comuns

Dimensionar o circuito pelo RLA e ignorar o LRA. O regime define o aquecimento do cabo; a partida define a proteção e a queda momentânea.

Religar o compressor logo após o desligamento. Sem equalização de pressão, a partida é contra carga e a corrente fica alta por muito mais tempo.

Tratar ciclo curto como problema elétrico. Na maioria das vezes a causa é térmica ou de refrigeração, e trocar componente elétrico não resolve.

Superdimensionar o equipamento “para garantir”. Produz ciclo curto, que é exatamente o regime que mais desgasta o compressor.

Assumir que compressor inverter dispensa cuidado na instalação. Ele exige menos da partida e mais da qualidade de energia.

O que ficou

O compressor puxa de quatro a oito vezes a corrente nominal ao partir, porque o rotor parado não gera tensão contrária. Esse pico dimensiona a proteção e produz queda de tensão momentânea que, em instalação apertada, impede a própria partida. Equalização de pressão exige três a cinco minutos entre desligamento e religamento. Ciclo curto quase sempre tem causa térmica, mas destrói componente elétrico. E o compressor inverter elimina o pico ao acelerar em vez de partir.

A próxima lição trata dos componentes que fazem a partida acontecer no motor monofásico: os capacitores.

Teste seu conhecimento

Por que a corrente de um motor é muito mais alta no instante da partida do que em regime?
  • A) Porque a tensão aplicada é maior na partida
  • B) Porque com o rotor parado não há tensão contrária se opondo à tensão aplicada
  • C) Porque o fator de potência é maior na partida
  • D) Porque a resistência dos enrolamentos aumenta com o motor parado

Resposta: B) Porque com o rotor parado não há tensão contrária se opondo à tensão aplicada. Em rotação, o motor gera uma força contraeletromotriz que se opõe à tensão aplicada e limita a corrente. Com o rotor parado essa oposição não existe, e a corrente fica limitada apenas pela impedância dos enrolamentos — daí o valor várias vezes maior, que é o LRA.

Qual a razão técnica para aguardar de três a cinco minutos antes de religar um compressor que acabou de desligar?
  • A) Permitir que o óleo retorne ao cárter
  • B) Permitir a equalização das pressões de alta e baixa, para que a partida não seja contra carga
  • C) Permitir o resfriamento do capacitor de partida
  • D) Cumprir exigência da NBR 5410

Resposta: B) Permitir a equalização das pressões de alta e baixa, para que a partida não seja contra carga. Com as pressões desequilibradas, o compressor precisa vencer esforço mecânico adicional na partida. A corrente permanece elevada por muito mais tempo, com aquecimento dos enrolamentos e atuação do protetor térmico. O intervalo dá tempo ao sistema de equalizar.

Um equipamento apresenta ciclo curto, ligando e desligando a cada poucos minutos. Qual abordagem de diagnóstico é a mais adequada?
  • A) Substituir o capacitor de partida
  • B) Aumentar a corrente nominal do disjuntor
  • C) Investigar causas térmicas e de refrigeração: dimensionamento, diferencial do termostato, carga de gás, condensador e filtro
  • D) Instalar um relé de retardo e encerrar o atendimento

Resposta: C) Investigar causas térmicas e de refrigeração: dimensionamento, diferencial do termostato, carga de gás, condensador e filtro. Ciclo curto se manifesta eletricamente mas quase sempre tem causa térmica ou do circuito frigorífico — equipamento superdimensionado, diferencial de termostato estreito, carga incorreta, condensador sujo ou filtro obstruído. Trocar componente elétrico ou mascarar com retardo não ataca a causa. —

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