Chillers: scroll, parafuso, centrífugo e absorção

Chiller é a máquina que produz água gelada. Por dentro, é o mesmo ciclo de compressão de vapor de qualquer ar-condicionado — a diferença é que o evaporador, em vez de resfriar ar, resfria água.

O que separa os tipos de chiller é essencialmente o compressor, e essa escolha determina faixa de capacidade, comportamento em carga parcial, nível de ruído, custo e estratégia de manutenção.

Resfriado a ar × resfriado a água

Antes do compressor, vem uma decisão mais estrutural: como o calor é rejeitado.

Resfriado a ar. O condensador troca calor diretamente com o ar externo. Instala-se na cobertura ou em área externa, sem torre, sem bomba de condensação, sem tratamento de água. Mais simples de operar, menos eficiente — porque a temperatura de condensação acompanha o bulbo seco externo, que num dia de verão pode passar de 35 °C.

Resfriado a água. O condensador troca com água vinda de uma torre de resfriamento. Como a torre trabalha por evaporação, ela alcança temperaturas próximas do bulbo úmido, sensivelmente inferior ao bulbo seco. A temperatura de condensação cai, a relação de compressão diminui e a eficiência sobe de forma significativa.

O preço dessa eficiência: torre, bombas, tratamento químico da água, purga, consumo de água e responsabilidade sanitária.

Regra prática de mercado: abaixo de ~200 TR, resfriado a ar costuma vencer pela simplicidade; acima de ~400 TR, resfriado a água quase sempre vence pela operação. No meio, calcula-se.

Os tipos por compressor

Scroll

Duas espirais, uma fixa e outra em movimento orbital, comprimindo o gás progressivamente. Poucas peças móveis, silencioso, robusto.

Faixa: 5 a 200 TR, geralmente com vários compressores em paralelo no mesmo chiller. Carga parcial: boa — a modulação acontece desligando compressores, o que mantém os ativos em condição favorável. Com inverter, melhora ainda mais. Onde aparece: chillers modulares, edifícios pequenos e médios, aplicações onde a redundância interna é valorizada.

O chiller modular scroll tem uma vantagem operacional relevante: a falha de um módulo reduz a capacidade, mas não derruba o sistema.

Parafuso

Dois rotores helicoidais engrenados que reduzem progressivamente o volume do gás. Compacto para a capacidade que entrega e tolerante a condições adversas.

Faixa: 60 a 800 TR. Carga parcial: aceitável, controlada por válvula deslizante ou por variação de rotação. Chillers de parafuso com inversor melhoraram muito nesse quesito. Onde aparece: o cavalo de batalha da faixa intermediária — hospitais, shoppings médios, indústria.

Centrífugo

Um rotor em alta rotação acelera o gás, e a energia cinética se converte em pressão no difusor. É a tecnologia mais eficiente em grande porte.

Faixa: 150 a 3.000 TR ou mais. Carga parcial: excelente, especialmente nas versões com acionamento de velocidade variável (VSD). É onde se encontram os melhores índices sazonais do mercado. Onde aparece: grandes shoppings, aeroportos, hospitais de grande porte, distritos de energia.

Surge (bombeamento). É a instabilidade característica do centrífugo: em carga muito baixa com alta relação de compressão, o fluxo se inverte momentaneamente e a máquina entra em oscilação ruidosa e danosa. O controle moderno previne com pás de pré-rotação e VSD, mas o fenômeno define o limite inferior de operação da máquina.

Mancal magnético. Chillers centrífugos com rotor levitado magneticamente eliminam o óleo do circuito. Consequências: sem sistema de lubrificação, sem contaminação do trocador por óleo (o que preserva a troca térmica ao longo dos anos), atrito quase nulo e desempenho excepcional em carga muito baixa. Custam mais e exigem assistência especializada.

Absorção

Não usa compressor. Usa calor como fonte de energia, movendo o ciclo por meio de um par absorvente-refrigerante — tipicamente brometo de lítio e água.

Faixa: 100 a 1.500 TR. Fonte de energia: vapor, água quente, gás direto ou calor residual de processo. Eficiência elétrica: consome pouquíssima eletricidade (só bombas), mas o COP térmico é baixo — bem abaixo de 1 nos ciclos de simples efeito, chegando a valores maiores em duplo efeito.

Onde faz sentido: exatamente onde existe calor sobrando de graça — cogeração, vapor de processo, calor residual industrial — ou onde a eletricidade é cara e o gás é barato, ou ainda onde há restrição de demanda elétrica contratada. Fora desses casos, dificilmente compete com um chiller elétrico moderno.

Comparativo

CritérioScrollParafusoCentrífugoAbsorção
Faixa (TR)5–20060–800150–3.000+100–1.500
Eficiência em plena cargaBoaBoaExcelenteBaixa (elétrica: excelente)
Carga parcialBoa (estágios)Aceitável a boaExcelente com VSDBoa
RuídoBaixoMédioMédio-altoBaixo
Custo inicialBaixoMédioAltoAlto
ManutençãoSimplesMédiaEspecializadaEspecializada
Redundância internaAlta (modular)BaixaBaixaBaixa

Como se mede eficiência de chiller

kW/TR — a métrica de uso corrente no mercado brasileiro: quanta potência elétrica se consome por TR produzida. Quanto menor, melhor. Chillers centrífugos modernos operam bem abaixo de 0,6 kW/TR em condições favoráveis.

COP — capacidade dividida por potência, ambos em kW. Quanto maior, melhor.

IPLV / NPLV — índice ponderado que combina o desempenho em várias frações de carga, refletindo melhor o consumo anual real. É o número que importa, porque chiller praticamente não opera em plena carga: passa o ano inteiro entre 40% e 80%.

Uma comparação feita apenas por eficiência de pico pode escolher a máquina errada. Duas máquinas com o mesmo kW/TR nominal podem diferir bastante no consumo anual.

Critérios de seleção que costumam ser esquecidos

Curva real em carga parcial. Peça ao fabricante a tabela de desempenho nas condições reais de operação, não só o ponto nominal.

Temperatura de condensação de projeto. Selecionar com condensação otimista produz um número bonito no catálogo e decepção no verão.

Perda de carga dos trocadores. Ela vira consumo de bombeamento permanente. Trocador com passe a mais melhora a troca e piora o bombeamento.

Fluido refrigerante. Considerando Kigali, a escolha do fluido tem implicação de custo de manutenção ao longo de 20 anos.

Espaço para limpeza dos tubos. Chiller de casco e tubo precisa de espaço livre no eixo dos feixes para a escovação. Sala apertada demais inviabiliza a manutenção.

Corrente de partida e demanda contratada. Partidas de máquinas grandes impactam a instalação elétrica.

Nível de ruído e vibração. Chiller na cobertura de edifício residencial vizinho é fonte clássica de conflito.

Erros comuns

Selecionar pela eficiência nominal. IPLV/NPLV descrevem melhor a realidade operacional.

Uma única máquina grande. Sem fracionamento, não há redundância nem operação eficiente em carga baixa. Dois ou três chillers costumam ser melhor solução que um.

Ignorar a mínima capacidade estável. Um chiller grande demais para a carga noturna vai ciclar ou entrar em surge.

Especificar absorção sem fonte de calor barata. Sem calor residual ou tarifa favorável, a conta não fecha.

Esquecer o tratamento de água no circuito de condensação — incrustação de poucos décimos de milímetro nos tubos já degrada perceptivelmente o desempenho.

O que ficou

O compressor define o chiller: scroll para porte pequeno e médio com boa redundância modular, parafuso na faixa intermediária, centrífugo em grande porte com a melhor eficiência — especialmente com VSD e mancal magnético —, e absorção onde existe calor barato disponível. Resfriado a água supera resfriado a ar em eficiência ao custo de torre e tratamento. E a comparação honesta entre máquinas se faz pelo índice de carga parcial, não pelo pico.

Teste seu conhecimento

Por que chillers resfriados a água são mais eficientes que os resfriados a ar?
  • A) Porque usam compressores melhores
  • B) Porque a torre aproxima a temperatura de condensação do bulbo úmido, inferior ao bulbo seco, reduzindo a relação de compressão
  • C) Porque a água conduz mais eletricidade
  • D) Porque operam com refrigerantes diferentes

Resposta: B) Porque a torre aproxima a temperatura de condensação do bulbo úmido, inferior ao bulbo seco, reduzindo a relação de compressão. A rejeição de calor por evaporação na torre permite condensar em temperatura próxima ao bulbo úmido do ar, bem abaixo do bulbo seco. Menor temperatura de condensação significa menor relação de compressão e menos trabalho do compressor.

O que é o fenômeno de surge em chillers centrífugos?
  • A) Um pico de corrente elétrica na partida
  • B) A instabilidade de fluxo que ocorre em carga muito baixa com alta relação de compressão, com inversão momentânea do escoamento
  • C) A perda de carga excessiva no evaporador
  • D) A vibração causada por desbalanceamento do rotor

Resposta: B) A instabilidade de fluxo que ocorre em carga muito baixa com alta relação de compressão, com inversão momentânea do escoamento. Em baixa vazão com alta pressão de descarga, o compressor centrífugo não consegue sustentar o escoamento e ocorre reversão momentânea, gerando oscilação ruidosa e danosa. É o fenômeno que limita a operação mínima da máquina.

Por que o IPLV é mais representativo que a eficiência em plena carga na comparação entre chillers?
  • A) Porque é medido em condições mais severas
  • B) Porque pondera o desempenho em várias frações de carga, refletindo o consumo anual real, já que o chiller raramente opera em plena carga
  • C) Porque considera o custo de manutenção
  • D) Porque é exigido por norma

Resposta: B) Porque pondera o desempenho em várias frações de carga, refletindo o consumo anual real, já que o chiller raramente opera em plena carga. Sistemas de climatização operam a maior parte do tempo em carga parcial. Um índice ponderado por frações de carga representa melhor o consumo ao longo do ano do que a eficiência no ponto de projeto. —

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