Ar-condicionado e saúde: o que a falta de manutenção realmente causa

Ar-condicionado não faz mal à saúde. Ar-condicionado sujo faz. A diferença entre as duas frases é a manutenção, e é ela que separa um equipamento que melhora a qualidade do ar de um que a piora — porque o mesmo aparelho faz as duas coisas, dependendo de como foi cuidado.


O que realmente acontece em um aparelho sem manutenção

Todo condicionador de ar recircula o ar do ambiente através de uma serpentina fria. Nessa serpentina o vapor de água condensa, e a superfície permanece úmida durante boa parte do tempo de funcionamento. Some a isso a poeira que o ar arrasta e você tem o que a serpentina de fato é depois de alguns meses sem limpeza: uma superfície úmida, escura, com matéria orgânica depositada e temperatura amena. É um meio de cultura.

O que cresce ali é biofilme — bactérias e fungos aderidos à aleta e à bandeja de condensado. A partir daí, três coisas acontecem ao mesmo tempo:

  • O ar insuflado carrega esporos e partículas. Em vez de filtrar, o aparelho passa a distribuir;
  • A troca de calor piora. A camada de sujeira isola a aleta, o equipamento demora mais para atingir a temperatura e o consumo sobe — tipicamente na faixa de 10% a 20%, podendo passar disso em casos graves;
  • O dreno entope. A água empoça na bandeja, o que acelera tudo o que está descrito acima e acaba vazando pela parede.
Filtro sujo em split: a sujeira isola a serpentina, aumenta o consumo e piora a qualidade do ar
Filtro sujo: a sujeira isola a serpentina, aumenta o consumo e piora a qualidade do ar insuflado

Os sintomas que aparecem nas pessoas

Quando várias pessoas que dividem o mesmo ambiente climatizado começam a apresentar os mesmos sintomas, e esses sintomas melhoram nos fins de semana e nas férias, a suspeita é do prédio, não de cada uma delas. Esse quadro tem nome: síndrome do edifício doente.

Os sintomas mais relatados se dividem em dois grupos. O primeiro é de irritação de mucosas — olhos ardendo, nariz entupido ou escorrendo, garganta seca, tosse. O segundo é sistêmico — dor de cabeça, fadiga, sonolência, dificuldade de concentração.

Em quem já tem rinite, asma, bronquite ou sinusite, o quadro não é novo: é agravamento. Três fatores contribuem, e vale separá-los porque as soluções são diferentes:

Umidade relativa baixa demais

O condicionador resfria e, ao fazê-lo, resseca o ar. Umidade relativa abaixo de 40% resseca as mucosas, reduz a eficiência do transporte mucociliar — o mecanismo pelo qual as vias aéreas expulsam partículas — e favorece infecções. A faixa de conforto recomendada pela norma brasileira fica entre 40% e 65% de umidade relativa, com temperatura entre 23 °C e 26 °C no verão.

Renovação de ar insuficiente

Aqui está o ponto que quase todo texto sobre o assunto erra. O ar-condicionado não emite CO₂. Quem emite somos nós. O que o aparelho faz — ou deixa de fazer — é trocar o ar do ambiente com o exterior.

Um split comum não tem renovação de ar: ele apenas recircula o que já está na sala. Em um ambiente fechado e ocupado, o CO₂ exalado pelas pessoas vai se acumulando, e é esse acúmulo que causa a sonolência, a dor de cabeça e a sensação de “ar pesado” no fim da tarde. A Resolução RE 09/2003 da Anvisa estabelece o valor máximo recomendável de 1.000 ppm de CO₂ e uma taxa mínima de renovação de 27 m³/h por pessoa em ambientes climatizados de uso público e coletivo.

Dito de outro modo: abrir a janela por dez minutos a cada duas horas resolve um problema que nenhuma limpeza de filtro resolveria.

Contaminação biológica

A mesma RE 09/2003 fixa o limite de 750 UFC/m³ para fungos no ar interior, com a ressalva de que a relação entre a contagem interna e a externa deve ser menor ou igual a 1,5 — ou seja, o ar de dentro não pode ser mais contaminado que o de fora. Quando está, a origem é o próprio sistema.

Legionella: o risco real, no lugar certo

A Legionella pneumophila causa a legionelose, uma pneumonia grave que pode matar, e o caso brasileiro mais conhecido é o do ex-ministro Sérgio Motta, em 1998 — episódio que levou diretamente à edição da Portaria 3.523/98 do Ministério da Saúde.

Mas é preciso ser preciso sobre onde essa bactéria vive, porque a afirmação genérica de que “o ar-condicionado transmite legionella” assusta sem informar. A Legionella prolifera em água parada entre 25 °C e 45 °C e se transmite por aerossol. Os focos clássicos são torres de resfriamento, sistemas de água quente, umidificadores por borrifo e reservatórios — não o split de parede de uma sala, cujo condensado escorre e que não gera aerossol de água em suspensão.

Isso não isenta o split: ele tem outros problemas, descritos acima. Significa apenas que o risco de legionelose está concentrado em sistemas centrais com torre de resfriamento, e é lá que a vigilância precisa ser rigorosa — com tratamento de água, limpeza programada e análise laboratorial.

Dutos: onde a sujeira é invisível

Em sistemas com rede de dutos, o problema muda de escala, porque ninguém olha para dentro deles. Em instalações antigas sem limpeza periódica já se encontrou de tudo — poeira acumulada por décadas, ninhos e animais mortos. O ar passa por ali antes de chegar às pessoas.

É por isso que a legislação trata duto separadamente do equipamento, e é por isso que a limpeza de dutos é serviço especializado, com equipamento próprio, e não algo que se faça com um pano.

O choque térmico

Entrar e sair de ambientes com grande diferença de temperatura irrita as vias aéreas, especialmente quando o ar está seco. A recomendação prática é manter a diferença para o ambiente externo abaixo de 10 °C sempre que possível — o que, no verão brasileiro, significa programar 24 °C ou 25 °C, e não 18 °C.

Essa é, aliás, a mesma recomendação que vale para economizar energia: cada grau a menos no termostato aumenta o consumo em algo entre 5% e 8%. O ajuste que faz bem à garganta faz bem à conta de luz.

E a história de que o ar-condicionado engorda?

Ela existe, tem origem séria e é muito mais frágil do que costuma ser apresentada. Em 2006, um grupo liderado pelo pesquisador David B. Allison publicou um trabalho listando dez fatores pouco considerados que poderiam estar contribuindo para a epidemia de obesidade. Um deles era a neutralidade térmica: vivendo sempre em ambientes de temperatura controlada, o corpo gastaria menos energia para se manter a 37 °C.

O raciocínio é fisiologicamente plausível — termorregulação consome energia. Mas trata-se de uma hipótese, apresentada como tal pelos próprios autores, e o efeito, se existir, é pequeno diante do sedentarismo e da alimentação. Quem passa o dia em escritório climatizado tem bons motivos para se mexer e comer melhor; o ar-condicionado não é o principal deles.

O que fazer, na prática

  • Filtro: lavar a cada 15 dias em uso intenso, só com água e sabão neutro, e recolocar completamente seco. É o item que o usuário faz sozinho e o que mais rende;
  • Limpeza técnica: a cada seis meses, com higienização de serpentina, bandeja e dreno, feita por profissional, com produto adequado e enxágue completo — resíduo de produto de limpeza corrói a aleta;
  • Renovação de ar: abrir janelas periodicamente em ambientes com split, ou prever renovação mecânica em projeto;
  • Temperatura: entre 23 °C e 26 °C, com diferença de até 10 °C em relação ao exterior;
  • Dreno: verificar o escoamento. Água na bandeja é o início de todo o resto;
  • Carro: o ar-condicionado automotivo capta o ar de tudo por onde o veículo passa e tem filtro de cabine próprio, que também precisa ser trocado.

Quando a obrigação é legal

Em edificações de uso público e coletivo com climatização artificial, manter o sistema limpo deixou de ser boa prática e virou obrigação. A Lei 13.589/2018 exige o Plano de Manutenção, Operação e Controle — o PMOC — e a RE 09/2003 define os parâmetros de qualidade do ar a serem atendidos. O descumprimento sujeita o responsável a sanções sanitárias.

Veja o que a lei exige, quem precisa ter PMOC e o que o plano deve conter.

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