É a pergunta mais feita do ramo: quanto custa instalar um ar-condicionado. E é a que menos se responde com honestidade, porque quem responde com um número está chutando, e quem se recusa a responder parece estar escondendo algo.
Este texto faz a terceira coisa: mostra como o preço se forma. Serve para o técnico que precisa orçar sem prejuízo e para o cliente que quer entender por que dois orçamentos da mesma instalação chegam com valores tão diferentes. Não há tabela de preço aqui, e a razão é simples: preço de cobre muda semana a semana, e uma tabela publicada hoje estaria enganando o leitor em três meses. O que não muda é a estrutura do custo.
Por que o mesmo aparelho tem dois orçamentos muito diferentes
Porque o aparelho é a parte fácil. O preço do equipamento é público, o cliente consulta em três sites e compara. O que varia é tudo o resto, e esse resto é quase sempre maior do que o cliente imagina.
Uma instalação de split hi-wall tem sete linhas de custo, e só duas delas são óbvias:
- tubulação de cobre, par de linhas;
- isolamento da tubulação;
- cabo elétrico e dispositivos de proteção;
- carga adicional de gás refrigerante;
- material de fixação, dreno e acabamento;
- hora do técnico, incluindo o ajudante quando há;
- deslocamento.
Mais a margem e os tributos, que não são custo mas fazem parte do preço. Quem esquece qualquer uma dessas linhas não está mais barato: está trabalhando de graça naquele item, e vai descobrir no fim do mês.
Tubulação de cobre
São duas linhas, de bitolas diferentes, a de líquido e a de sucção. As bitolas são definidas pelo fabricante do equipamento, no manual de instalação, e variam por capacidade e por modelo. Não existe um par universal por faixa de BTU, e substituir por bitola próxima, porque era o que tinha na van, é causa de perda de capacidade e de falha de compressor.
O que forma esse custo:
- O comprimento real do percurso, não a distância em linha reta entre a evaporadora e a condensadora. Curva consome tubo, desvio de viga consome tubo, folga para a conexão consome tubo. Medir pelo caminho que o tubo vai fazer, com sobra.
- A bitola, que muda o preço por metro de forma expressiva. Um par maior pode custar o dobro do par menor.
- O preço do cobre no dia. Cobre é commodity, cotado em bolsa internacional, e o preço do metro de tubo acompanha. Esse é o item do orçamento que mais rapidamente fica velho, e é a principal razão pela qual orçamento de instalação precisa de prazo de validade. Trinta dias é razoável; noventa é assumir risco de graça.
Isolamento da tubulação
É a linha que mais apanha, porque é a mais fácil de cortar na hora de fechar o preço, e é a que cobra mais caro depois.
O isolamento, em polietileno expandido, precisa ter parede adequada ao diâmetro do tubo e à exposição do trecho. Trecho ao sol pede parede maior e proteção contra raio ultravioleta, porque polietileno exposto esfarela em poucos meses e depois disso o tubo trabalha nu. Trecho embutido pede continuidade: emenda mal vedada é ponte térmica e ponto de condensação dentro da parede.
As duas economias clássicas nesta linha, e o que cada uma produz:
- Isolar só a linha de sucção e deixar a de líquido nua. Gera condensação, gotejamento e perda de rendimento.
- Isolamento de parede fina em trecho exposto. Dura uma estação. O cliente chama de volta no verão seguinte achando que o aparelho está com defeito.
Isolamento bem feito é barato comparado à visita de retorno, e é um dos itens que separa o orçamento sério do orçamento que só parece mais barato.
Cabo elétrico e proteção
Aqui há dois circuitos diferentes, e confundi-los é erro comum no orçamento.
O cabo de interligação, entre evaporadora e condensadora, tem seção e número de vias definidos pelo fabricante, no manual. O circuito de alimentação, do quadro até o aparelho, é dimensionado pela NBR 5410, em função da corrente do equipamento, do comprimento do trecho, do método de instalação e da queda de tensão admissível. Trecho longo exige seção maior do que a tabela básica sugere, e é nesse ponto que o orçamento feito por telefone erra.
Junto vão os dispositivos de proteção: disjuntor com a curva e a corrente certas, e dispositivo diferencial residual. Há uma ferramenta de dimensionamento de cabo e disjuntor neste portal para fazer essa conta na hora da visita.
Duas situações encarecem muito esta linha e precisam ser identificadas na visita, não no telefone: não existir circuito dedicado no quadro, o que obriga a puxar alimentação nova e muitas vezes a trocar o disjuntor geral; e não existir 220 V disponível onde o aparelho pede 220 V.
Carga adicional de gás
Esta é a linha que mais gera discussão, e a que mais circula com número errado.
O aparelho vem carregado de fábrica para um comprimento de tubulação determinado. Acima dele, acrescenta-se refrigerante por metro. O problema é que esses dois valores variam enormemente entre fabricantes e entre modelos, e qualquer regra de bolso erra. Dois exemplos reais, nas pontas opostas:
- Nos hi-wall da Agratto, a carga de fábrica cobre instalações de até 3 metros, com acréscimo de 20 g por metro nos modelos de 9.000 e 12.000 BTU e de 30 g por metro nos de 18.000 a 30.000.
- Num multi-split Daikin, o manual de instalação especifica carga de fábrica para linha de líquido de até 30 metros, com acréscimo de 0,020 kg por metro acima disso.
São dez vezes de diferença no comprimento coberto. Quem trabalha com a ideia de que “vem carregado para 5 metros” vai cobrar carga que não precisava num caso e deixar o sistema com falta de fluido no outro.
A regra, portanto, não é um número: a carga de fábrica está na etiqueta do aparelho e o cálculo do acréscimo está no manual de instalação. Ler antes de orçar. E o custo desta linha não é só o gás: é o gás mais a balança, mais o tempo de carga, mais o cilindro que você comprou e que não rende infinitamente.
Fixação, dreno e acabamento
A linha esquecida em praticamente todo orçamento feito às pressas, e que costuma somar entre um décimo e um sétimo do material:
- suporte da condensadora, parafuso, bucha e amortecedor de vibração;
- tubo de dreno, com caimento, e o que for necessário para garanti-lo;
- fita de PVC, abraçadeira, canaleta ou tubulação de acabamento quando o percurso é aparente;
- veda-rosca, massa de vedação da passagem na parede, e o material de reparo do que foi aberto;
- nitrogênio para a brasagem, oxigênio e gás do maçarico, vareta de solda;
- desgaste de ferramenta, que é custo mesmo quando não aparece na nota: a bomba de vácuo, o manifold e o vacuômetro têm vida útil e se pagam no preço dos serviços.
Vale insistir num ponto, porque ele liga este texto ao de garantia e responsabilidade técnica: o tempo de vácuo e o nitrogênio na brasagem são as duas economias mais tentadoras e as mais caras. Em vício oculto, o prazo de garantia só começa a correr quando o defeito aparece, e defeito de vácuo malfeito aparece no verão seguinte. Vinte minutos economizados hoje são uma dívida de prazo indeterminado.
A hora do técnico, que é a conta que ninguém faz
Esta é a linha mais importante do orçamento e a única que não se compra em loja. A maioria dos profissionais a estima olhando o que o concorrente cobra, o que é o mesmo que deixar o concorrente definir se o seu negócio dá lucro.
A conta correta é esta:
custo da hora = custo fixo mensal dividido pelas horas realmente faturáveis no mês
O numerador é o que sai todo mês, trabalhe você ou não: pró-labore, aluguel ou proporcional da casa, combustível e manutenção do veículo, seguro, telefone e internet, contador, impostos fixos, ferramenta em reposição, uniforme e equipamento de proteção, e o seu décimo terceiro e as suas férias, que não existem para quem é autônomo mas o custo existe.
O denominador é onde quase todo mundo se engana. Horas faturáveis não são horas trabalhadas. De um mês de cerca de 176 horas úteis, saem do faturável: o tempo de deslocamento entre atendimentos, as visitas de orçamento que não fecham, o tempo de compra de material, o atendimento de telefone e mensagem, o retorno em garantia, a nota fiscal e a cobrança, e os dias em que simplesmente não apareceu serviço. O que resta de hora efetivamente vendável é muito menor do que parece, com frequência menos da metade.
Um exemplo com números redondos, apenas para mostrar a mecânica — troque pelos seus, que são os únicos que importam: se o custo fixo é de 6.000 por mês e as horas faturáveis são 70, o custo da hora é cerca de 86. Se você estimar 150 horas faturáveis porque trabalha 150, chega a 40 por hora, e vai vender a metade do que custa sem perceber. Esse é o mecanismo exato pelo qual um profissional competente trabalha muito e não sobra nada.
Sobre esse custo entram a margem, que é o lucro do negócio e não o seu salário — o seu salário é o pró-labore, que está no numerador —, e os tributos conforme o seu regime.
Feita uma vez, essa conta muda a forma de orçar para sempre, porque a partir dela você sabe o que significa aceitar um serviço com desconto. Dez por cento de desconto sobre o preço não é dez por cento de margem a menos: é a margem inteira, se a margem era dez por cento.
Deslocamento
Combustível, pedágio, desgaste do veículo, estacionamento quando é prédio, e o tempo no trânsito, que é hora do técnico ainda que não seja hora de serviço. Instalação em bairro distante não custa o mesmo que instalação a dez minutos, e tratar as duas igual é subsidiar a segunda com a primeira.
O que dobra o preço da mesma instalação
Duas casas, o mesmo aparelho, o mesmo modelo, orçamentos que diferem em cem por cento. As causas, quase sempre, são estas:
- Altura. Condensadora em fachada acima de dois metros do nível inferior é trabalho em altura e aciona a NR-35: análise de risco, ancoragem, cinto, treinamento. Isso tem custo real e não é opcional.
- Percurso longo. Mais tubo, mais isolamento, mais cabo, carga adicional de gás e, dependendo do caso, bitola maior.
- Furação em estrutura. Parede de alvenaria comum é uma coisa; concreto armado, outra, com broca própria, tempo e cuidado com a armadura.
- Ausência de infraestrutura. Sem circuito dedicado, sem ponto de dreno, sem passagem prevista, o serviço deixa de ser instalação e passa a ser obra.
- Acabamento aparente. Percurso embutido já pronto é rápido; percurso aparente que o cliente quer discreto exige canaleta bem executada, e isso é tempo.
- Prédio com regra de condomínio. Horário restrito, agendamento de elevador de serviço, exigência de documentação. Tudo isso consome hora faturável.
Para quem está pedindo orçamento
Se você é o cliente e chegou até aqui, a conclusão prática é que comparar dois orçamentos pelo valor final não diz nada. O que permite comparar é pedir que cada um discrimine:
- metragem de tubulação e bitola;
- tipo e espessura do isolamento, e o que foi previsto para trecho exposto ao sol;
- seção do cabo de alimentação e de interligação, e quais dispositivos de proteção estão inclusos;
- se há carga adicional de gás prevista e para quantos metros;
- se o reparo da parede e o acabamento do percurso estão inclusos;
- prazo da garantia da mão de obra, por escrito, e o que ela cobre;
- validade do orçamento.
Com essa lista na mão, a diferença entre os dois orçamentos deixa de ser um mistério e passa a ser uma comparação item por item. Na maioria dos casos, o mais barato não achou um jeito melhor de fazer: ele deixou algo fora. E o que costuma ficar fora é justamente o que não se vê depois de pronto — o tempo de vácuo, a espessura do isolamento, a seção do cabo.
O resumo
O preço de uma instalação é a soma de sete linhas de custo mais margem e tributo, e a maior delas não é o cobre: é a hora do técnico, calculada sobre as horas que realmente se faturam e não sobre as que se trabalham. Quem faz essa conta uma vez para de orçar por comparação com o vizinho. E quem a pede discriminada para de comparar orçamentos pelo total.
Não há tabela aqui porque tabela de preço envelhece em meses e o leitor decide com número velho. A estrutura, não.
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