Diodos na placa: retificação, roda-livre e teste com multímetro

O diodo é o componente eletrônico mais simples de entender e o mais fácil de testar com um multímetro comum. É por isso que ele é o melhor ponto de entrada no serviço eletrônico: um teste de junção bem feito já resolve uma parte real dos atendimentos.

A função: deixar passar num sentido

Diodo conduz corrente num sentido e bloqueia no outro. É isso que ele faz, e é dessa única propriedade que saem todas as aplicações que você vai encontrar.

Duas características importam na prática:

Queda de tensão direta. Conduzindo, o diodo não se comporta como um fio: ele mantém sobre si uma queda de tensão aproximadamente constante — da ordem de 0,6 a 0,7 V nos diodos de silício comuns, e algo em torno de 0,2 a 0,4 V nos diodos Schottky. É esse valor que o multímetro mostra no teste de junção, e é dele que vem o calor que o diodo dissipa quando a corrente é alta.

Tensão reversa máxima. Bloqueando, o diodo suporta até certa tensão no sentido contrário. Passado esse limite, ele conduz e normalmente se destrói — exceto no diodo zener, projetado justamente para trabalhar nessa região, assunto da próxima lição.

A faixa de corrente que ele aguenta vem no código do componente. O corpo traz uma faixa pintada no lado do cátodo, que é o terminal por onde a corrente sai quando o diodo conduz.

As quatro aplicações que aparecem em refrigeração

1. Retificação

Converter corrente alternada em contínua. É para isso que existe diodo na entrada de toda fonte de alimentação.

Um diodo sozinho corta metade do ciclo. Quatro diodos ligados em ponte aproveitam os dois semiciclos, e é essa configuração — a ponte retificadora — que você encontra na entrada das fontes, às vezes como quatro diodos separados, às vezes como um único bloco com quatro terminais marcados ~ ~ + −.

Ponte retificadora de quatro diodos Quatro diodos em losango. As duas entradas de corrente alternada ligam-se aos vértices laterais; a saída positiva sai do vértice superior e a negativa do vértice inferior, alimentando o capacitor de filtro. ~ entrada CA ~ + capacitor de filtro − ponte retificadora

A ponte em curto é uma das falhas mais frequentes de fonte, e dá um sintoma característico: o fusível de entrada abre imediatamente ao energizar. Uma ponte em curto liga os dois lados da rede através dela.

2. Roda-livre: o diodo em paralelo com bobina

Toda bobina — de relé, de contator, de válvula solenoide — armazena energia em campo magnético. No instante em que a corrente é interrompida, esse campo colapsa e a bobina gera um pico de tensão de polaridade invertida, muito maior que a tensão de alimentação.

Esse pico destrói o transistor que comandava a bobina. A solução é um diodo em paralelo com ela, em polaridade invertida, dando um caminho fechado para essa energia se dissipar. É o diodo de roda-livre, ou diodo flyback.

Duas consequências de campo:

  • Esse diodo é pequeno, barato e falha. Quando falha em aberto, o transistor de comando morre em seguida — e é comum encontrar os dois queimados juntos.
  • Se você substituir uma bobina ou um relé por um modelo que já trazia esse diodo interno, a polaridade do conector passa a importar. Ligar invertido coloca o diodo em curto direto sobre a alimentação.

3. Proteção contra polaridade invertida

Um diodo em série com a alimentação impede que a placa seja energizada ao contrário. Custa a queda de tensão direta dele, e evita destruir a placa inteira com um conector trocado.

4. Sinalização e isolamento de caminhos

Diodos em série com entradas e saídas digitais impedem que a corrente retorne por caminhos indesejados. Aparecem em placa de comando com várias origens de sinal e, no caso do LED, o próprio componente é um diodo — que conduz num sentido e emite luz ao conduzir.

O teste de junção: o mais útil do serviço eletrônico

Com o multímetro na função de diodo (o símbolo do triângulo com a barra), a placa desenergizada e os capacitores descarregados:

Ponteira vermelha no ânodo, preta no cátodoPonteiras invertidasConclusão
0,4 a 0,8 V (silício)aberto / sem indicaçãoDiodo bom
perto de 0 nos dois sentidosperto de 0Em curto
abertoabertoAberto
0,2 a 0,4 VabertoSchottky bom

Três observações que fazem a diferença entre um teste confiável e um palpite:

O teste direto na placa pode dar falso curto. Há componentes em paralelo com o diodo que oferecem caminho de baixa resistência — bobinas, por exemplo, têm resistência pequena e indicam “curto” no teste de junção. Resultado suspeito pede ao menos um terminal desoldado.

Diodo bom nos dois sentidos não garante diodo bom em operação. Diodo pode falhar por fuga ou por não suportar a tensão reversa em serviço, e isso não aparece no teste com multímetro. É uma limitação do método, não um defeito do raciocínio.

Ponte retificadora se testa como quatro diodos. Nos blocos de quatro terminais, teste cada combinação entre os terminais ~ e os terminais + e −: devem dar junção num sentido e aberto no outro. Qualquer par conduzindo nos dois sentidos condena a ponte.

O que o diodo diz sobre o resto do circuito

Diodo em curto raramente é o fim da história. Pergunta a fazer sempre: por que ele entrou em curto?

  • Diodo de roda-livre em curto — frequentemente acompanha transistor de comando queimado.
  • Ponte retificadora em curto — pode ter sido surto de rede; vale verificar o varistor de entrada, que pode estar partido ou carbonizado.
  • Diodo de retificação de fonte chaveada em curto — verifique também o capacitor de filtro associado e a carga que ele alimenta.

Trocar o diodo e devolver o equipamento sem essa pergunta é como trocar fusível sem procurar o curto.

Erros comuns

Testar diodo com a placa energizada. Leitura sem sentido e risco para o instrumento.

Condenar diodo por teste feito com ele soldado. Caminhos paralelos de baixa resistência produzem falso curto.

Trocar o diodo de roda-livre e ignorar o transistor de comando. Os dois costumam queimar juntos.

Instalar relé com diodo interno sem respeitar a polaridade. Coloca o diodo em curto sobre a alimentação.

Substituir diodo por outro de tensão reversa menor “porque o corpo é parecido”. Falha na primeira condição de serviço que o original aguentava.

O que ficou

Diodo conduz num sentido e bloqueia no outro, com queda direta de 0,6 a 0,7 V em silício e 0,2 a 0,4 V em Schottky. Em refrigeração ele aparece retificando a entrada da fonte, protegendo transistores do pico de bobinas, impedindo polaridade invertida e isolando caminhos de sinal. O teste de junção é o teste mais útil do serviço eletrônico, exige placa desenergizada e, em caso de dúvida, um terminal desoldado. E diodo em curto é convite para procurar a causa, não só para substituir.

A próxima lição monta a fonte completa: a ponte retificadora que você acabou de ver, o capacitor de filtro, o zener e o regulador que entregam a tensão estável à lógica.

Teste seu conhecimento

Por que existe um diodo ligado em paralelo com a bobina de um relé, em polaridade invertida?
  • A) Para retificar a corrente que alimenta a bobina
  • B) Para dar caminho à energia armazenada no campo magnético quando a corrente é interrompida, protegendo o transistor de comando
  • C) Para reduzir o consumo da bobina
  • D) Para sinalizar que a bobina está energizada

Resposta: B) Para dar caminho à energia armazenada no campo magnético quando a corrente é interrompida, protegendo o transistor de comando. Ao interromper a corrente, o campo magnético da bobina colapsa e gera um pico de tensão invertida muito maior que a alimentação. O diodo de roda-livre oferece um caminho fechado para essa energia se dissipar, evitando a destruição do transistor que comandava a bobina.

Ao testar um diodo soldado na placa, você obtém indicação de curto nos dois sentidos. O que fazer antes de condená-lo?
  • A) Energizar a placa e repetir a medição
  • B) Trocar o diodo imediatamente, pois o resultado é conclusivo
  • C) Desoldar ao menos um terminal e repetir o teste, porque componentes em paralelo de baixa resistência produzem falso curto
  • D) Medir a resistência do diodo na escala de 200 ohms

Resposta: C) Desoldar ao menos um terminal e repetir o teste, porque componentes em paralelo de baixa resistência produzem falso curto. Bobinas e outros componentes em paralelo com o diodo têm resistência baixa e aparecem como curto no teste de junção feito na placa. Isolar um terminal elimina os caminhos paralelos e torna o resultado confiável.

Um equipamento abre o fusível de entrada imediatamente ao ser energizado. Qual componente deve ser verificado com prioridade?
  • A) O sensor de temperatura ambiente
  • B) O microcontrolador da placa
  • C) A ponte retificadora da fonte, que em curto liga os dois lados da rede através dela
  • D) O capacitor permanente do compressor

Resposta: C) A ponte retificadora da fonte, que em curto liga os dois lados da rede através dela. Ponte retificadora em curto estabelece um caminho de baixa impedância entre os condutores da rede, e o fusível abre no instante da energização. É uma das falhas de fonte mais frequentes, e costuma ter surto de rede como causa de origem. —

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